Abril 17, 2026

Canal Balneário

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“Os Melhores Anos”: a história do boom do Basket em Portugal

Os Melhores Anos

Se é fã de basquetebol há um ebook completamente grátis que talvez lhe possa interessar: Os Melhores Anos. Este é um documento elaborado por Edgar Macedo e recorda os melhores momentos de uma época na qual surgia em Portugal uma febre que elevou o basquetebol a um nível jamais visto numa modalidade que não o futebol.

Falamos com o autor e trazemos hoje até aos fãs do desporto essa entrevista.

Os Melhores Anos

Canal Balneário: Quem é o Edgar Macedo?

Edgar Macedo: Sou formado em comunicação, colaborei no passado com diversos órgãos de imprensa escrita, e apesar de a dada altura ter arrumado o jornalismo na gaveta deixei o gosto por contar histórias do lado de fora. Pratiquei basquetebol nos escalões mais jovens do Estrelas da Avenida e ganhei o gosto pela modalidade enquanto adepto nas bancadas do Pavilhão das Olaias, a ver os jogos da equipa sénior do clube. Fui jogando de forma recreativa nos torneios do Inatel e, entre 2015 e 2017, surgiu a oportunidade de dirigir a secção de basquetebol do Clube de Futebol “Os Belenenses”, emblema do qual sou sócio. Nos últimos três anos dediquei-me, em paralelo com a atividade profissional, à escrita deste “Os Melhores Anos – Quando o basquetebol era a segunda modalidade dos portugueses” que disponibilizei gratuitamente em formato digital.

(…)tive a nítida sensação que os atletas da formação desconheciam os acontecimentos extraordinários que o basquetebol viveu. Estavam a ser treinados pelo Sérgio Ramos sem perceberem que estava ali um homem que jogou no 5 inicial da Liga ACB e que chegou ser considerado jogador da semana e jogador do mês nessa prova.

Edgar Macedo

CN: O que é que está na origem deste eBook e qual o seu grande objetivo?

EM: Quando tive a oportunidade de dirigir a secção de basquetebol do Clube de Futebol “Os Belenenses” ganhei contacto mais próximo com algumas figuras que foram de alguma forma protagonistas das épocas de maior popularidade do basquetebol em Portugal. Como o Sérgio Ramos, o San Payo Araújo, o Jorge Afonso, o Jorge Faustino, o André Pedroso, o Carlos Dias ou o Tiago Westenfeld, entre outros. Foi ao escutar as suas histórias e ao ter acesso às suas experiências que percebi, resgatando a minha própria memória, que esta modalidade tem um passado recente que merece ser contado. Por outro lado, tive a nítida sensação que os atletas da formação desconheciam os acontecimentos extraordinários que o basquetebol viveu. Estavam a ser treinados pelo Sérgio Ramos sem perceberem que estava ali um homem que jogou no 5 inicial da Liga ACB e que chegou ser considerado jogador da semana e jogador do mês nessa prova. Ou, por exemplo, que assistiam aos jogos da Euroleague sem a consciência que a Ovarense foi um dos emblemas fundadores dessa competição. Foi também muito a pensar nessa geração mais jovem que decidi disponibilizar gratuitamente o e-book num formato digital.

CN: Como o Edgar menciona, de facto houve um período em que o Basquetebol foi a segunda modalidade dos portugueses. O que acha que mudou para que isto deixasse de ser verdade?

EM: Não é uma resposta fácil. Há uma conjugação de factores que têm de ser tidos em consideração. Alguns no âmbito das próprias transformações sociais. Surgiram nos últimos anos uma série de “novos desportos” que disputam o espaço mediático, a ocupação de tempos livres, e a atenção das empresas em matéria de patrocínios. Desde as maratonas ou o running, passando pelo padel, até ao Futsal. Registe-se também que a passagem do desporto para canais pagos foi uma escolha que acabou a ter consequências ao contribuir para o afastamento do público na relação que mantinha com as modalidades. Note-se, por exemplo, que o Futsal começa a ganhar um papel de maior destaque e popularidade quando os seus jogos têm transmissão em sinal aberto na SIC, algo que acontece naquela altura em contraciclo com a tendência das restantes modalidades que passavam para o sinal fechado.

(…)não deixa de ser irónico que a queda de popularidade do basquetebol tenha começado a acentuar-se na proporção inversa aos resultados desportivos da selecção nacional(…)

Edgar Macedo

CN: A perda de popularidade do Basquetebol em Portugal deve-se ao crescimento da popularidade de outros desportos “indoor” ou é mais demérito próprio?

EM: É inquestionável que outras modalidades souberam “mexer-se” melhor, como foquei anteriormente, e isso acaba por estar inevitavelmente ligado à questão do “demérito próprio”, à qual não devemos fechar os olhos. De facto, não deixa de ser irónico que a queda de popularidade do basquetebol tenha começado a acentuar-se na proporção inversa aos resultados desportivos da selecção nacional, algo que deixa evidente que houve, pelo menos nesse período, uma oportunidade que se deixou escapar e isso deverá motivar, inevitavelmente, uma auto-reflexão. Este e-book procura ser mais factual do que opinativo e cada leitor é convidado, perante os factos descritos, a desenvolver as suas próprias conclusões. No epílogo recordo uma frase do Orson Welles que diz “se queres um final feliz isso vai depender do momento em que decides parar de contar a história”.

O basquetebol teve um papel de vanguarda na criação de uma Liga Profissional, mas já antes tinha sido percursor na formação de técnicos.

Edgar Macedo

CN: Destes anos que o eBook destaca, qual (ou quais) são as personalidades que mais impacto tiveram nesse período do basquetebol português?

EM: Existem várias personalidades a destacar. Além de factores de âmbito internacional e que são focados no e-book, como o Dream Team dos Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Barcelona, com todo o mediatismo que envolveu, até à presença do basquetebol no cinema, na música ou na moda. Em Portugal decididamente que os nomes de João Coutinho e Carlos Barroca são incontornáveis, ao “entrarem pela casa” dos portugueses com um jeito tão particular que arrastou uma legião de fãs. Por outro lado, será justo apontar o papel dos treinadores que souberam desenvolver a modalidade e alimentar o mediatismo, algo que é referido por diversas vezes no livro e por vários intervenientes. O basquetebol teve um papel de vanguarda na criação de uma Liga Profissional, mas já antes tinha sido percursor na formação de técnicos e, sem menosprezar as outras modalidades, saiu sem dúvida na linha da frente a nível competitivo fruto desse trabalho. Recorde-se que na década de 90 os clubes nacionais olhavam olhos nos olhos os gigantes europeus e isso criou referências no público que assistia em casa pela televisão. Provavelmente se sairmos agora à rua e fizermos um inquérito público sobre figuras do desporto nacional extra-futebol do final do século XX a maioria vai apontar Carlos Lisboa, Jean Jacques, Jorge Araújo, Mário Palma ou Nuno Marçal.

CN: O João Santos refere no livro que olhavam para nós como nós olhamos para San Marino ou Liechtenstein… O que é que falta para mudar a imagem do nosso Basquetebol lá fora?

EM: Recentemente a selecção feminina Sub-16 teve resultados históricos e a selecção masculina sub-20 idem. Ou seja, a este nível julgo que o mundo do basquetebol já não olha para Portugal da mesma maneira que olhava no período a que se refere o João Santos. O próprio e-book recorda que o técnico espanhol Moncho Lopez, no momento da oficialização como selecionador nacional, destaca a excelente campanha no Europeu 2007 como momento que deu a conhecer Portugal ao mundo do basquetebol. O sucesso da Ticha Penicheiro, por exemplo, foi também decisivo para que essa ligação perdure. Entre outras coisas faltará, julgo eu, que um ou dois clubes nacionais voltem a ser competitivos nas provas europeias para que o país se fixe decididamente como um ponto na rota internacional da modalidade.

CN: O que é que entende que mudou desses anos para o contexto atual?

EM: A mudança mais evidente é desde logo o profissionalismo. A Liga Profissional, com todas as venturas e desventuras que produziu, permitia que treinadores e jogadores trabalhassem num contexto profissional. Isso trouxe consigo resultados. Aquele que mais destaco, por ser um fenómeno infelizmente pouco visto no desporto em Portugal, foi a oportunidade de dar origem à descentralização na luta por títulos. É certo que hoje a Oliveirense tem um papel preponderante na competição mas há depois um fosso enorme entre eles, Benfica, Porto, recentemente Sporting, e os restantes. Estamos a falar de um passado em que no período de 13 temporadas chegaram à final do campeonato emblemas tão diversos como Estrelas da Avenida, Ovarense, Illiabum, Portugal Telecom, Oliveirense, Ginásio, além de FC Porto e Benfica. Isto sem referir outras competições, como a Taça da Liga, que chegou a ser conquistada também por Seixal, Aveiro Basket, CAB ou Lusitânia. Naquele período o Benfica ficou duas vezes fora do playoff e o FC Porto uma. Não escandalizava ninguém e o público continuava a aparecer nos pavilhões. Isto não consegue ser visto em muitas modalidades.

CN: Que retrato faz do panorama atual do Basquetebol português?

EM: No epílogo do e-book concluo que o futuro tem tudo para ser promissor. Nunca houve tanto basquetebol disponível, com a competição nacional na TV2 e a NBA e Euroliga nos canais pagos, aos quais se junta o acesso via internet. Os êxitos na formação a nível de selecções parecem apontar igualmente no bom sentido e até o bom desempenho do Neemias Queta na NCAA traz de volta os tempos em que Portugal torcia para ver o Betinho entrar na NBA. Há portanto caminho para um horizonte de esperança.

CN: O que é que o Basquetebol precisa para conseguir atingir o sucesso internacional que Portugal já conseguiu em outras modalidades como o Futsal e até mais recentemente o Andebol?

EM: Eu sou apenas um adepto que em jeito de hobby escreveu um e-book sobre os anos de maior popularidade do basquetebol em Portugal. Não tenho a ousadia de procurar opinar sobre algo que desconheço pois remete para questões essencialmente técnicas. Os treinadores e jogadores, sobretudo aqueles que viveram experiências internacionais, são os mais indicados para responder a essa questão. E alguns deles, nas conversas que tivemos para a recolha de testemunhos para este trabalho, lamentaram não serem procurados no sentido de transmitir as suas experiências ou sugerir caminhos. Talvez fosse interessante começar por aí. Uma task force para o crescimento da modalidade que procurasse congregar experiências e know-how. Já imaginaram o luxo que seria ter estas personalidades à volta de uma mesa? Que dream team. Por que não?

A fechar, pedimos ao edgar que formasse duas equipas. Uma de jogadores portugueses e outra de jogadores estrangeiros que passaram em Portugal.

  • Um 5 de jogadores portugueses: Betinho; Sérgio Ramos; Carlos Andrade; João Santos; Pedro Miguel
  • Um 5 de jogadores estrangeiros que passaram em Portugal: Jean Jacques; Jared Miller; Reggie Moore; Rasul Salahudin; Joaquin Arcega

Este excelente eBook pode ser descarregado gratuitamente em (www.osmelhoresanos.pt).

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