A Comunicação no Desporto: Fechar-se na Bolha é um Erro Estratégico
comunicação no desporto
No excerto do programa Tema do Dia de 21 de maio de 2026, transmitido pelo ZeroZero, o jornalista e comentador Pedro J. da Cunha faz uma análise precisa e esclarecedora sobre a importância da comunicação no futebol atual. Falando sobre Francesco Farioli, atual treinador do FC Porto, o Diretor Adjunto de Informação do ZeroZero destaca uma verdade incontornável: “o pilar da comunicação é fundamental para o treinador de futebol”.
Farioli percebe isso com clareza. Cuida da sua imagem, pesa cada frase e entende que, quando responde a uma pergunta numa conferência de imprensa, a resposta não é para o aquele jornalista, a resposta é para as milhares de pessoas que vão ler aquilo que o mesmo vai escrever à posteriori. Esta consciência diferencia-o de “alguns casos de colegas” que, infelizmente, “não valorizam este lado da comunicação”. Esta análise de Pedro Cunha após o International Media Day organizado pelo FC Porto foi o ponto de partida para uma reflexão minha sobre a importância de comunicar no desporto.
Comunicação Cuidadosa vs Isolamento
Pedro J. da Cunha salienta que Farioli é “uma pessoa muito leve, muito agradável, que consegue conquistar-te facilmente”, mas que, ao mesmo tempo, demonstra extrema cautela. Um exemplo curioso e revelador surge quando o jornalista lhe pergunta sobre os seus ídolos de infância no futebol italiano dos anos 80 e 90. Farioli evita dar um nome específico de qualquer grande clube (Juventus, Nápoles, Milan ou Inter). Como explica Cunha, fazê-lo “provavelmente isso iria chegar à Itália e ele iria ficar eventualmente conotado com esse clube”. A resposta diplomática foi, portanto, uma escolha consciente.
Este episódio ilustra o equilíbrio ideal: comunicar sem se expor desnecessariamente. Não se expor, não implica esconder-se da mesma forma que comunicar não é dizer tudo o que se pensa. O silêncio total, esse sim, pode ter custos elevados.
Muitos clubes, jogadores e treinadores optam por se fechar numa bolha protetora, limitando o contacto com a comunicação social. Acham que assim se protegem. Na prática, o que criam é um fosso entre eles e os adeptos. Quando os intervenientes desportivos desaparecem ou respondem de forma mecânica e vazia, deixam um vazio narrativo que é preenchido por rumores, críticas descontextualizadas e frustração dos adeptos e sócios que, é importante não esquecer, pagam e sustentam em parte as despesas do clube.
Aproximar os Adeptos: O Verdadeiro Ganho
Uma comunicação inteligente e cuidada humaniza os protagonistas. Permite que o adepto sinta que o treinador ou o jogador não é um ser inalcançável, mas alguém que compreende o peso da camisola e o impacto das suas palavras.
Como bem refere Pedro J. da Cunha, estamos perante “a nossa responsabilidade” enquanto comunicação: as entrevistas e reportagens são lidas por milhares de pessoas. Ignorar isso é desperdiçar uma oportunidade poderosa de construir empatia, gerir expectativas e fortalecer a ligação emocional com a massa associativa.
Os adeptos perdoam mais facilmente erros desportivos quando sentem proximidade e autenticidade. Fechar-se na bolha gera o efeito contrário: maior distanciamento, maior exigência e menor compreensão nos momentos difíceis.
Conclusão: Comunicação é Inteligência Competitiva
O exemplo de Francesco Farioli, tão bem dissecado por Pedro J. da Cunha no Tema do Dia do ZeroZero, deve servir de inspiração. Comunicar com propósito, estratégia e respeito pelo público tem de ser o caminho de qualquer clube que quer ter uma relação autêntica com os seus adeptos. Ser cauteloso não significa ser mudo.
No futebol de hoje, onde a imagem e a perceção valem quase tanto como os pontos no campeonato, fechar-se na bolha não é proteção — é uma limitação autoimposta.
Abrir canais de comunicação, mesmo que de forma controlada e inteligente, é o caminho para uma relação saudável com os adeptos, uma marca mais forte e um futebol mais humano.
Créditos: Excerto do programa “Tema do Dia” de 21 de maio de 2026, da ZeroZero, com comentário de Pedro J. da Cunha.
